Física Quântica · Mecânica Ondulatória · Demonstração Completa
Equação de Schrödinger
A equação que governa o comportamento quântico da matéria — deduzida a partir da conservação de energia e da dualidade onda-partícula.
A Crise da Física Clássica
No início do século XX, a física estava em crise. Experimentos como o efeito fotoelétrico, o espectro discreto do hidrogênio e a difração de elétrons mostravam que partículas subatômicas simplesmente não obedeciam as leis de Newton.
Em 1926, Erwin Schrödinger (1887–1961) propôs a equação de onda quântica que leva seu nome. Ele ganhou o Nobel de Física em 1933 por esta descoberta.
Ela descreve como a função de onda Ψ de uma partícula evolui no tempo. Ψ não é a posição da partícula — é uma amplitude de probabilidade. Ao quadrado, |Ψ|², fornece a probabilidade de encontrar a partícula em cada ponto do espaço.
Dualidade Onda-Partícula
Em 1924, Louis de Broglie propôs que toda partícula com momento p tem uma onda associada. O comprimento de onda é:
onde h ≈ 6,626 × 10⁻³⁴ J·s é a Constante de Planck. Esta ideia — confirmada experimentalmente — é o fundamento filosófico da equação de Schrödinger.
Se elétrons se comportam como ondas, deve existir uma equação de onda que os governe — assim como a equação de onda clássica governa o som e a luz. Schrödinger foi atrás dessa equação.
| Requisito | Motivação |
|---|---|
| Equação diferencial de onda | Elétrons exibem interferência e difração |
| 1ª ordem no tempo | O estado inicial Ψ(x,0) determina tudo |
| Respeite E = p²/2m + V | Conservação de energia (caso não-relativístico) |
| Admita superposição | Princípio da superposição quântica |
A Onda Plana — ponto de partida
Para uma partícula livre (V = 0) com momento p e energia E bem definidos, a função de onda é uma onda plana:
| Símbolo | Nome | Relação física |
|---|---|---|
| k | Número de onda | k = 2π/λ = p/ħ |
| ω | Frequência angular | ω = 2πf = E/ħ |
| ħ | h-barra | ħ = h2π ≈ 1,055 × 10⁻³⁴ J·s |
Usando a Fórmula de Euler: Ψ = A·[cos(kx−ωt) + i·sin(kx−ωt)]. É uma onda complexa girando no plano imaginário — exatamente o núcleo da Transformada de Fourier que já estudamos!
Derivando Ψ — extraindo energia e momento
O passo central: derivar a onda plana em relação ao tempo e ao espaço, e identificar o que aparece.
Usamos E = ħω (relação de Planck-Einstein). Portanto iħ ∂/∂t é o operador energia.
Usamos p = ħk (de Broglie). Portanto −ħ²/2m · ∂²/∂x² é o operador de energia cinética.
Conservação de Energia → Equação de Schrödinger
A mecânica clássica diz que a energia total é cinética + potencial:
Substituindo cada grandeza pelo seu operador quântico e aplicando à função de onda Ψ:
| Grandeza clássica | Operador quântico | Atuando em Ψ |
|---|---|---|
| Energia total E | iħ · ∂/∂t | iħ · ∂Ψ/∂t |
| Energia cinética p²/2m | −ħ²/2m · ∂²/∂x² | −ħ²/2m · ∂²Ψ/∂x² |
| Energia potencial V | V(x,t) × | V(x,t) · Ψ |
A equação E = Ec + V, aplicada à função de onda, torna-se:
Pegamos a conservação de energia clássica (E = Ec + V), substituímos cada grandeza pelo seu operador diferencial quântico, e aplicamos à função de onda Ψ. As consequências dessa equação descrevem toda a química e a física atômica.
Forma 3D e o Operador Hamiltoniano Ĥ
No espaço tridimensional, a derivada espacial de segunda ordem vira o operador Laplaciano ∇²:
A equação completa em 3D é:
Definindo o Operador Hamiltoniano Ĥ (energia total do sistema):
A equação de Schrödinger escreve-se de forma compacta e elegante:
iħ·∂Ψ/∂t = ĤΨ é o equivalente quântico da 2ª Lei de Newton. Ambas são equações diferenciais que descrevem como o estado do sistema evolui no tempo. A diferença é que o "estado" aqui é uma função de onda complexa — não uma posição e velocidade clássicas.
O que é Ψ? — Interpretação de Born
Schrödinger desenvolveu a equação, mas a interpretação física de Ψ foi proposta por Max Born em 1926:
Ψ em si é um número complexo sem significado físico direto. Mas |Ψ|² é real, não-negativo e representa uma densidade de probabilidade. A condição de normalização exige:
A natureza probabilística da função de onda levou ao famoso paradoxo: antes de uma medição, a partícula existe em uma superposição de estados — como um gato simultaneamente vivo e morto. Ao medir, a função de onda "colapsa" para um estado definido.
Schrödinger criou esse experimento mental para criticar (ironicamente) a interpretação probabilística — mas o paradoxo revelou a estranheza real da mecânica quântica.
Equação Independente do Tempo
Quando o potencial V não depende do tempo (átomo de hidrogênio, poço de potencial, oscilador harmônico), usamos a separação de variáveis:
Substituindo na equação e dividindo por ψ·φ, cada lado depende de variáveis diferentes e deve ser igual a uma constante — a energia E. A parte temporal dá:
E a parte espacial é a Equação de Schrödinger Independente do Tempo:
Esta é uma equação de autovalores: queremos as funções ψ(x) (autoestados) e as energias E (autovalores) que a satisfazem. Para o átomo de hidrogênio, as soluções são os orbitais s, p, d, f… e as energias são os níveis Eₙ = −13,6/n² eV — explicando diretamente os espectros atômicos.
Partícula na Caixa (Poço Infinito)
O problema mais simples e didático: partícula confinada entre 0 e L com V = 0 dentro e V = ∞ fora. As condições de contorno ψ(0) = ψ(L) = 0 impõem kL = nπ. A solução é:
Os níveis de energia quantizados:
A energia só pode assumir valores discretos (E₁, 4E₁, 9E₁, …). Isso não foi imposto — emergiu naturalmente das condições de contorno! Esta é a razão pela qual os átomos têm espectros discretos: a quantização é uma consequência matemática da equação de onda confinada.
Princípio da Incerteza de Heisenberg
Uma das consequências mais profundas da equação de Schrödinger, derivada por Heisenberg em 1927:
É impossível — mesmo com instrumentos perfeitos — conhecer simultaneamente a posição e o momento com precisão arbitrária.
A função de onda Ψ(x) e sua Transformada de Fourier Ψ̂(p) são um par de Fourier (estudamos isso!). A dualidade de Fourier implica: sinal estreito no espaço → largo no espaço de momento. Quanto mais bem localizada a partícula (Δx pequeno), mais espalhado seu momento (Δp grande).
A incerteza quântica é, matematicamente, a mesma dualidade tempo-frequência da Transformada de Fourier.
| Situação | Δx | Δp |
|---|---|---|
| Partícula muito localizada | Pequeno | Muito grande |
| Onda plana (partícula livre) | Infinito | Zero |
| Pacote Gaussiano | σ | ħ/(2σ) |
Existe também o princípio de incerteza energia-tempo:
Isso explica partículas virtuais que "surgem do nada" por um tempo brevíssimo, o efeito Casimir e a energia do ponto zero.
Propagação de um Pacote de Onda
A solução completa da equação dependente do tempo é Ψ(x,t) = ψ(x)·e−iEt/ħ. Para um pacote gaussiano (superposição de ondas planas), a densidade de probabilidade |Ψ|² se propaga e dispersa com o tempo.
O pico do pacote (densidade de probabilidade) se move com a velocidade de grupo vg = dω/dk — que é a velocidade "clássica" da partícula. A velocidade de fase vφ = ω/k é diferente e não carrega informação física.
A equação de Schrödinger é não-relativística. Em 1928, Paul Dirac criou a versão quântica e relativística:
Suas duas soluções de energia (± √(p²c²+m²c⁴)) previram matematicamente a existência da antimatéria — o pósitron foi descoberto experimentalmente em 1932, confirmando a previsão.
| Equação | Regime | Spin |
|---|---|---|
| Schrödinger | Não-relativístico | Não inclui naturalmente |
| Klein-Gordon | Relativístico | Spin 0 (bósons) |
| Dirac | Relativístico | Spin ½ — elétrons, pósitrons |
"A equação de Schrödinger fez pela física atômica
o que as leis de Newton fizeram pela mecânica clássica —
e suas consequências ainda não foram totalmente exploradas."